O mundo está comendo menos. E o agro?

Agronegócio Consumo 21/08/2026 14:41 Marcello Brito (AgFeed) agfeed.com.br

As pessoas estão comendo menos no mundo. O agro brasileiro precisa se adaptar, e o algodão já deu o exemplo.

Por um século, a indústria de alimentos acreditou que as pessoas sempre querem comer mais. Por isso, tudo era feito em porções grandes, combos e embalagens familiares. Toda a forma de vender comida se baseava nessa ideia.

Essa ideia está sendo desafiada agora, não por uma mudança de cultura, mas por uma molécula.

  • Remédios para emagrecer (GLP-1) fazem as pessoas comerem menos, afetando o mercado de alimentos.
  • Estudos mostram que famílias gastam até 8% menos em supermercado.
  • O efeito se espalha para a casa toda: quem mora com quem toma remédio também come menos.
  • O consumo de calorias cai, mas o de roupas aumenta, porque as pessoas perdem peso.
  • O Brasil já tem um exemplo de sucesso: o algodão virou exportador mundial com rastreamento, mostrando como o agro pode se adaptar.

Pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, publicaram em dezembro um estudo completo sobre como os remédios para emagrecer (GLP-1) afetam o consumo de comida.

Esse estudo não perguntou para as pessoas o que elas comiam. Ele analisou dados reais de compras de 150 mil casas americanas e cruzou com informações sobre o uso desses remédios.

O resultado mostrou que, nos primeiros seis meses, as compras no supermercado caem 5,3% em média, e mais de 8% nas casas com renda alta. Também cai o gasto em lanchonetes e restaurantes. A queda é maior em alimentos calóricos e processados, e dura pelo menos um ano.

Esse número, sozinho, já faria qualquer empresa de alimentos repensar seus planos. Mas ele vem junto com outros. A consultoria KPMG calcula que cada usuário passa a comer 21% menos calorias por ano, e isso pode tirar US$ 48 bilhões do mercado de comida e bebida nos EUA.

O banco J.P. Morgan estima entre US$ 30 e 55 bilhões até o começo da próxima década. E o BCG, que ouviu mais de 1.500 usuários em 9 países, descobriu um dado importante: em 70% dos casos, o efeito vai além da pessoa que toma o remédio, atingindo toda a casa. Quem cozinha para quem toma o remédio também muda a comida.

Mas não é o fim do mundo. O mesmo estudo da KPMG mostra que esses consumidores, mesmo comendo menos, ainda representam um mercado de US$ 190 bilhões.

A demanda não acaba. Ela muda: de caloria para comida mais saudável, de quantidade para proteína. Cai o salgadinho, sobe a proteína, a fibra e os suplementos.

Para o Brasil, que exporta muita comida vegetal, isso é uma mudança de mistura. Como o Brasil também exporta proteína, é uma grande oportunidade, desde que se enxergue.

E tem um efeito extra que poucos notaram. Uma pesquiza da PwC com a Num erator, de maio de 2026, most rou que essas pessoas gastam 10% a mais com roupa entre o sexto e o oitavo mês de tratamento, porque mudam de manequim.

Esse dado vem de compras reais, não de intenções. Ou seja: quem come menos, compra mais roupa. Para quem produz caloria e fibra, isso é uma vantagem que ninguém usou ainda.

O problema não é vender. É provar

Mas chegar a esse novo consumidor não depende mais só de preço e qualidade.

O exemplo mais forte disso aconteceu na China, na região de Xinjiang, que produz 90% do algodão chinês e um quinto de todo o algodão do mundo.

Em 2022, os EUA criaram uma lei que presume que tudo que é produzido em Xinjiang usa trabalho forçado. Quem importa precisa provar que não é de lá. Como era quase impossível rastrear o algodão, o efeito foi imediato.

Um quinto do algodão do mundo perdeu acesso ao maior mercado consumidor, não por preço ou qualidade, mas por falta de prova.

Essa lógica está se espalhando. Os EUA criaram tarifas sobre produtos feitos com trabalho forçado, que não olham o produto, mas como ele foi feito e se há controle.

A União Europeia vai criar um 'passaporte digital' para produtos, com informações sobre origem e materiais, que a alfândega poderá ler. Os têxteis serão dos primeiros a ter isso.

Isso muda tudo: a prova deixou de ser um papel junto com a nota, e agora é condição para vender. Quem tiver o sistema de controle, pode aumentar a receita.

O Brasil já fez isso uma vez. Numa cadeia só

Existe um exemplo no Brasil que poucos conhecem: o algodão.

Há vinte anos, o Brasil era o segundo maior comprador de algodão do mundo. Hoje é o maior vendedor, e bateu a meta de 2030 antes do prazo.

Essa mudança aconteceu por causa de um protocolo. Cerca de 85% do algodão brasileiro é certificado por um padrão que verifica 178 exigências legais.

O Brasil é o maior fornecedor de algodão certificado do mundo. Cada fardo exportado tem um código de barras ou QR Code para ser rastreado, algo único.

Isso é diferente de outras cadeias, como carne e soja, que não têm o mesmo controle. A lição não é culpar ninguém, é sobre método.

A diferença não foi dinheiro ou tecnologia, mas governança: um padrão único, todos aderem, auditoria externa e cada produto tem um identificador.

Foram quatro decisões, não milagres. Eles viram o futuro e entenderam que o consumo estava mudando. Isso é visão estratégica.

Por que a conta não fecha e onde ela pode fechar

Se todo mundo sabe o que fazer, por que não avança Geralmente culpam o produtor, o ambientalismo, a burocracia, o preço do carbono ou a falta de vontade.

Nenhuma dessas explicações resolve. Quando olhamos o que impede os projetos de restauração e agricultura regenerativa no Brasil, os problemas quase nunca são ambientais.

São problemas como: projeto que não se paga, terra sem documento, tamanho pequeno, dinheiro gasto agora e retorno só depois, falta de garantias e mudança do câmbio.

Ou seja, não são problemas de floresta, são problemas de dinheiro e papelada.

Há um erro: tratar tudo como a mesma coisa. A agricultura regenerativa exige menos dinheiro por hectare e dá retorno em 2 a 4 anos. Já a restauração florestal é outra história.

Restaurar florestas para produzir carbono pode exigir sete vezes mais capital e ficar sem dar dinheiro por cinco anos.

São projetos tão diferentes quanto uma padaria e uma usina. Se usarem o mesmo financiamento, um quebra, geralmente o de restauração, e todos acham que 'restauração não dá certo'.

A solução é fazer na ordem: primeiro capital que aceita esperar, e depois capital normal, cada projeto no momento certo.

Um projeto no começo não deve procurar investidores grandes. Ele precisa primeiro reduzir os riscos para depois pedir dinheiro mais barato.

E há um problema físico: faltam mudas e sementes de plantas nativas no Brasil. Isso é fundamental para a restauração.

Faltam 600 milhões de mudas por ano para cumprir as metas. O setor que produz mudas é fraco, espalhado e sem dinheiro.

No agronegócio, isso significa produzir mudas em grande escala, com genética e qualidade. A demanda é garantida por lei. Enquanto todos discutem o carbono, o dinheiro certo está nas mudas.

O que está em jogo

Juntando tudo, vemos que a demanda de comida no mundo está mudando por causa de remédios e mudanças nas pessoas, não por causa da agricultura.

Para vender para mercados que pagam melhor, é preciso provar como o produto foi feito. O Brasil já vê isso com as carnes na Europa.

E para financiar isso, o agro precisa aprender coisas novas, como organizar projetos, arrumar garantias, regularizar terras e trabalhar em conjunto. Mais toneladas não resolvem.

Já estamos cansados de ouvir que o Brasil pode ser ótimo em agricultura regenerativa, restauração e carbono. Mas só falar não basta.

O agro tem uma vantagem: já mostrou, com o algodão, que é possível ter rastreamento e que isso paga. Agora precisa fazer isso em todo o agro, não só em um setor.

A próxima vantagem do Brasil não vai vir de plantar mais, mas de provar a origem.

Marcello Brito é diretor acadêmico na FDC-Agroambiental.


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