Lendária fábrica de colheitadeiras argentina é vendida por apenas US$ 1

Agronegócio Vassalli 28/08/2026 14:41 Luiz Fernando Sá - AgFeed agfeed.com.br

A tradicional fabricante de colheitadeiras Vassalli, que atua há 75 anos, mudou de dono por US$ 1. O novo grupo promete pagar dívidas e salários atrasados para retomar a produção.

A história da fabricante argentina de colheitadeiras Vassalli é cheia de altos e baixos. Com mais de 75 anos de mercado, ela foi pioneira em várias tecnologias e símbolo de resistência contra as multinacionais do setor.

Mesmo assim, a empresa passou por mais uma troca de controle. Na quarta-feira, 26 de agosto, foi vendida por apenas US$ 1 para um grupo liderado por Roberto Santiago Chinelli. Antes, pertencia à família Marsó, tradicional criadora de aves.

Resumo rápido

  • A Vassalli foi vendida por US$ 1, valor simbólico, mas tinha dívidas e salários atrasados.
  • A fábrica está parada há quase um ano, com encomendas atrasadas há dois anos.
  • O novo dono planeja retomar a produção com 30 máquinas e pagar os funcionários.
  • É a 4ª troca de controle em menos de 10 anos.
  • A empresa foi líder do mercado argentino e inovou nos anos 1950.

O novo dono assume uma fábrica quase parada, com encomendas atrasadas há quase dois anos e funcionários com salários atrasados há dez meses. Também há dívidas trabalhistas, comerciais e financeiras acumuladas ao longo de pelo menos uma década.

Fundada em 1949 por Roque Vassalli, na cidade de Firmat, na província de Santa Fé, a empresa foi por décadas a principal fabricante de colheitadeiras da Argentina e líder do mercado local.

Nos anos 1950, ela introduziu inovações mundiais na colheita de milho. Na década seguinte, viveu seu melhor momento, vendendo cerca de mil máquinas por ano.

Hoje, além das dívidas, resta apenas o título de "última fabricante 100% nacional de colheitadeiras" da Argentina. Na prática, isso mostra como as marcas locais perderam espaço para as multinacionais.

A crise que levou a essa nova venda não é nova. Em 2018, com passivo declarado de mais de 547 milhões de pesos, a maioria com o Banco Nación, a empresa pediu concurso preventivo, uma espécie de recuperação judicial na Argentina.

Dois anos depois, a Vassalli foi comprada pela Financiamiento Estratégico SA, que assumiu a gestão e reativou a fábrica. As dívidas foram renegociadas com um plano aprovado.

Mas os problemas estruturais continuaram. A partir de 2023, a crise se agravou por causa de seca, falta de crédito, câmbio instável e inflação alta, que atingiram em cheio os produtores argentinos.

A estiagem foi forte, a falta de financiamento, a instabilidade cambial e a alta inflação derrubaram o mercado de máquinas. A Vassalli parou de aceitar novos pedidos para tentar cumprir os que já tinha.

Foi então que ocorreu uma nova troca de comando. No início de 2024, Eduardo Marsó e sua família, com tradição na avicultura, compraram a empresa por cerca de US$ 8 milhões, prometendo reativá-la.

Mas não conseguiram cumprir a promessa. No ano seguinte, os salários começaram a atrasar, fornecedores cortaram entregas e, perto do fim do ano, a produção parou completamente.

Não há números oficiais sobre o total das dívidas. Sabe-se que, em junho, a empresa tinha 869 cheques rejeitados, somando 1,337 bilhão de pesos (cerca de US$ 870 mil), além de salários e contas com fornecedores em aberto.

O novo controlador, Roberto Chinelli, comprometeu-se a pagar, em até 120 dias, os salários atrasados de setembro de 2025 a junho de 2026.

Quando a nova crise começou, há um ano, a empresa tinha cerca de 280 funcionários. Em meados de agosto, eram pouco mais de 200, e muitos estavam saindo.

Chinelli já tem forte ligação com a Vassalli. Ele atua com a empresa desde os anos 1990, quando representou acionistas minoritários. Depois, participou da gestão da Financiamiento Estratégico e foi gerente geral no início da gestão Marsó.

Agora, ele será o rosto do novo plano de recuperação. A ideia é retomar a produção de forma gradual, começando com 30 colheitadeiras, recuperar a relação com fornecedores, liberar componentes presos na alfândega e criar um programa para quitar as dívidas salariais.

A meta é alcançar a plena produção em novembro. Depois de resolver as dívidas, a empresa pretende desenvolver uma nova família de colheitadeiras para o mercado médio, a chamada Línea 80, com componentes europeus de fornecedores como Claas, Bosch e Scania.

O processo, porém, ainda tem incertezas. Os prazos para o pagamento dos salários foram adiados porque a operação demorou para ser formalizada.

A empresa também tem colheitadeiras vendidas e não entregues, como uma Vassalli 770 que deveria ser concluída em novembro de 2024 e ainda está atrasada.

No horizonte, a esperança é que, depois de anos de instabilidade e trocas de comando, a "escoba nueva" (vassoura nova, em espanhol) finalmente varra a sujeira.


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