Alessandra Zanotto Costa explica que a irrigação no estado está próxima de alcançar a metade da área total de produção e que a técnica funciona como seguro contra secas, reduzindo riscos climáticos na lavoura.
A Bahia está passando por uma mudança rápida na forma como produz algodão. Em entrevista à série SpeedCast, organizada pelo AgFeed em parceria com a AgriConnection e gravada durante o Congresso Brasileiro do Algodão em Belo Horizonte, a presidente da Associação Baiana de Produtores de Algodão (Abapa), Alessandra Zanotto Costa, revelou que a parte da plantação que usa irrigação está prestes a se tornar a maioria.
A gente está alcançando quase 50% da área hoje de algodão irrigado e devemos ultrapassar na próxima safra, afirmou. É uma nova realidade, é um novo modelo de cultivo em que o estado vem se destacando.
- A área irrigada de algodão na Bahia deve passar de 50% da produção total na próxima safra.
- Antes, esse número era de apenas 20% a 25%, mas cresceu muito nas últimas duas safras.
- A Bahia já é o estado que mais usa irrigação na agricultura do Brasil, superando Minas Gerais.
- O algodão foi o principal motivo para essa mudança, ajudando a controlar o risco de seca.
- O Brasil se consolidou como o maior exportador de algodão do mundo.
Motivos da expansão da irrigação
Ela contou que, há três ou quatro anos, esse percentual era de apenas 20% a 25%. Segundo a dirigente, o grande salto aconteceu principalmente nas duas últimas safras, com um aumento considerável na safra 2025/2026.
A Bahia vem se consolidando, hoje é o estado que mais irriga na agricultura no Brasil, ultrapassou inclusive Minas Gerais, que se destacava, e a cultura que deu esse chamado ao irrigado, com certeza, foi o algodão, destacou.
A corrida pela irrigação tem fundamentos bem claros para a presidente da Abapa. O primeiro ponto é a disponibilidade hídrica, disse. A gente tem um aquífero que atende, e tem hoje uma sobra de recurso de água para fornecer, explicou.
Benefícios e desafios técnicos
Há também um fator humano relevante. Eu acredito muito que a irrigação é uma vocação. Essa vocação vai passando de um para o outro, de um vizinho para o outro, de uma geração para outra.
A disponibilidade de energia e o crédito completam o pacote de condições que, segundo ela, levam o produtor a buscar essa alternativa.
Mas a questão mais decisiva é a redução do risco. Não podemos desconsiderar o principal aditivo da irrigação, que é a mitigação do risco climático, afirma a presidente. Com as incertezas climáticas que marcaram as últimas safras, garantir água ao cultivo virou questão de sobrevivência econômica.
O modelo baiano tem uma particularidade técnica. A grande maioria da área hoje irrigada na Bahia, a gente chama de irrigação de salvamento, disse Zanotto Costa.
Ela explicou: Não é aquela irrigação que substitui completamente o regime de chuva, da necessidade da planta. Há áreas que sim, mas a grande maioria não. Na prática, a irrigação funciona como um seguro contra os períodos de seca e irregularidades na chuva, e não como substituição total.
Por isso, pontuou, ainda é preciso ter um olhar para essa mitigação, para as questões climáticas.
Impactos na saúde das lavouras
A expansão irrigada, contudo, tem um custo na parte de saúde das plantas. A irrigação, combinada com a rotação de culturas que o produtor baiano adotou para melhorar o solo, cria condições para o aumento de pragas e doenças.
Essa rotação de culturas provoca, sim, um aumento de pragas e doenças, uma proliferação mais aguda. E isso tem acontecido, admitiu a produtora, para então exemplificar.
Eu brinco que foi a época em que a nossa principal praga, a praga que mais preocupava, era o bicudo. Hoje a gente tem a mosca branca, que é uma praga que ataca outras culturas, a soja, o milho, e ela vem podendo trazer prejuízos consideráveis ao algodão, principalmente em relação à qualidade, disse.
Investimentos e futuro do setor
O desafio exige que a pesquisa caminhe junto, ao lado dos produtores. E é exatamente isso que eventos como o Congresso Brasileiro do Algodão proporcionam, conectando empresas de manejo e produtos ao campo. Estar muito bem conectados é importante pra sustentabilidade da cultura, resume.
Olhando para a próxima safra, a expectativa da Abapa é de continuidade da expansão irrigada. A gente prevê um aumento do irrigado. A gente ainda não tem certeza sobre a continuidade da área no sequeiro, muito em função também das perspectivas de El Niño, afirmou Zanotto Costa. Mas a gente acredita, até como informação da associação, que a área geral deve se manter.
O padrão já se repetiu no último ciclo. Teve um pouco de crescimento, com uma redução no sequeiro e o aumento no irrigado, lembrou.
A decisão de ampliar a área tornou-se cada vez mais individual. O produtor está olhando bem para sua gestão, para os seus negócios, olhando para dentro de casa, explicou a presidente.
O cenário de mercado, admitiu, é de incerteza. A gente sente falta de uma previsibilidade de demanda até pra que a gente possa entender que o preço da commodity possa continuar sendo favorável, trazendo o mínimo de margem que a gente precisa, afirmou. É dia após dia, resumiu, citando ainda as questões geopolíticas que atravessam o negócio.
Na prática, isso significa um recuo nos investimentos pesados. No âmbito de máquinas e investimentos nesse porte, acredito que não. É um momento realmente de recuar, de segurar, do produtor trabalhar com a infraestrutura que ele já tem, disse.
Mas há uma linha que o cotonicultor não ultrapassa nesse sentido. Não se pode pensar em cortar tecnologia no campo, como manejo, tecnologias de semente específicas para aquela fazenda, para aquela região.
A atenção se desloca, então, para a mitigação de risco, dentro e fora da porteira, com o produtor buscando, por exemplo, tecnologias de comercialização e proteção de preço, para poder garantir o mínimo de margem.
Visão global e liderança feminina
Para fechar, a visão de Zanotto Costa sobre o algodão brasileiro é de confiança com responsabilidade. Eu vejo o algodão brasileiro com muitas oportunidades. O Brasil se consolidou como o maior exportador e agora ele tem um desafio de se manter nessa posição. E é possível se manter com qualidade, com transparência e com rastreabilidade, que é o que a gente já faz, mas precisa cada vez fazer mais e melhor, concluiu a presidente da Abapa.
A trajetória pessoal da dirigente espelha a transformação do setor. Filha de produtor que planta algodão desde 2000, ela está no negócio há 20 anos e é a segunda mulher a presidir a Abapa e a primeira da segunda geração. A segunda geração já vem liderando o setor, não só na Bahia, mas acredito que no Brasil inteiro, destacou.

Alessandra Mello, jornalista do AgFeed





