Tratando da vida de Luis Turiba, poeta, jornalista e ativista cultural que marcou a história da cultura no Brasil, com atuação revitalizadora da cena literária e jornalística.
Morreu na madrugada desta quarta-feira (26), em Salvador (BA), o poeta, ativista cultural e jornalista Luis Turiba. O escritor morreu em casa, aos 76 anos de idade, devido a complicações graves de saúde. A família ainda não divulgou informações sobre velório e enterro.
Turiba deixa cinco filhos, seis netos e uma obra ampla, que inclui poesias, crônicas, textos jornalísticos, video-documentários, revistas culturais e parcerias musicais, como a letra da canção Bico da Torre, musicada por Renato Matos e gravada por Zélia Duncan (então Zélia Cristina) e por Célia Porto.
Flamenguista, deixou em seu livro, Luminares (1983), uma espécie de manual de despedida, um roteiro de velório, bem a seu estilo: irônico, despojado e afetuoso. Coloquem Imagine na vitrola / retirem-lhe o coração em frangalhos / e enterrem-no enrolado na bandeira do Flamengo / Quanto ao resto / corpo subproduto da vida / qualquer cerimônia ( simples ) cabe / Afinal a morte é sempre um gol de placa / aos 45 minutos / do segundo tempo da existência / No mais: foi bom ponta-de-lança.
Trajetória
Luiz Artur Toribio, ou simplesmente Turiba, nasceu no Recife (PE), em 1950, mas mudou-se ainda jovem para o Rio de Janeiro, onde tornou-se militante do movimento estudantil. Ex-membro do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi impedido de terminar seus estudos na Escola Técnica Nacional Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ) durante a ditadura civil-militar (1964/1985).
Prestes a completar 18 anos, foi preso por determinação da Justiça Militar, que o condenou a seis meses de prisão por alegada participação em atividades subversivas. Segundo ele, ao ser detido, agentes do antigo Destacamento de Operações de Informação Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), órgão de repressão subordinado ao Exército, o torturaram física e psicologicamente.
Lan e7ou seu primeiro livro de poesia, Kipróko, em 1977. Ainda no Rio de Janeiro, conseguiu emprego como repórter, iniciando uma bem-sucedida carreira com passagens pela revista Manchete e pelos jornais O Globo e Gazeta Mercantil. Foi como correspondente da Gazeta que Turiba mudou-se para Brasília, em 1979. Ganhou vários prêmios por suas reportagens, inclusive dois Esso regionais.
Entre 1985 e 2022, Turiba editou, em Brasília, a revista cultural Bric-a-Brac. Lançada em meio aos estertores da ditadura militar e à campanha pela retomada do direito da população a votar para presidente da República, a publicação extrapolou os limites do Distrito Federal, entrevistando intelectuais e artistas como Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Nise da Silveira, Manoel de Barros, entre outras personalidades.
Após anos atuando como assessor do Ministério da Cultura, aposentou-se no início da década de 2010 para dedicar-se exclusivamente à literatura. Voltou a se estabelecer no Rio de Janeiro, mas vivia em trânsito, entre as capitais fluminense, baiana e Brasília, onde amigos se mobilizam para homenageá-lo com um encontro no bar e restaurante Beirute, neste sábado (29) à tarde.
Repercussão
Para o poeta Nicolas Behr, um dos maiores legados culturais deixados por Turiba é justamente a revista Bric-a-Brac.
Ela foi uma publicação que entrou para a história das revistas literárias por ter sido muito inovadora, tanto do ponto de vista gráfico, quanto de conteúdo, disse Behr à Agência Brasil, lembrando que Turiba também participou do Concerto Cabeças, movimento artístico que reuniu, no fim da década de 1970, escritores, músicos, produtores culturais, artistas gráficos, estudantes e intelectuais que promoviam eventos culturais nas ruas da capital federal, com a presença de nomes como Oswaldo Montenegro, Cassia Eller, Renato Matos, Liga Tripa e Mel da Terra.
Behr também destacou o engajamento jornalístico do amigo.
Ele participou da resistência à ditadura e da redemocratização. Depois, participou do [famoso bloco carnavalesco de Brasília] Pacotão. O Turiba era um agitador cultural, uma pessoa que vai ser lembrada como alguém alegre, criativo, engajado. Um poeta agregador, do coletivo, acrescentou Behr.
Em nota, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal lamentou o falecimento de Turiba. Para a entidade, o escritor, um brasiliense por adoção, tornou-se um ícone inestimável da nossa imprensa e da cultura local, o que lhe rendeu o merecido título de Cidadão Brasiliense.
Com a certeza de que o exemplo e as palavras de Turiba continuarão inspirando cada profissional que luta por um jornalismo livre e democrático, expressamos nossa solidariedade aos seus filhos, netos, familiares e amigos, acrescentou o sindicato.
Matéria atualizada às 12h48 para acréscimo de informações.

Brasília - O curador da 33ª Feira do Livro de Brasília, Luis Turiba, concede entrevista à Radio Nacional de Brasília (Wilson Dias/Agência Brasil)






