A guerra entre Rússia e Ucrânia está afetando o comércio de grãos, como trigo e milho, o que pode aumentar os preços dos alimentos no Brasil, como pão, carne e ovos. Saiba como isso pode impactar o seu bolso.
Nas últimas semanas, ataques atingiram portos, terminais de grãos e navios no Mar Negro. A Ucrânia atacou estruturas russas em Novorossiysk, uma importante saída de trigo. A Rússia atacou o porto ucraniano de Izmail, no rio Danúbio, usado como rota alternativa para as exportações agrícolas.
- O preço do trigo subiu quase 10% em Chicago, passando de US$ 6,45 para US$ 7,09 por bushel.
- O Brasil importa trigo e a produção nacional deve cair 19%, o que aumenta a necessidade de comprar de outros países.
- O milho também pode ficar mais caro, pois é usado como substituto do trigo na alimentação animal.
- A guerra encarece o transporte, o seguro marítimo e os combustíveis, o que aumenta os custos para o produtor.
- O dólar mais alto, devido à saída de investidores estrangeiros, também pressiona os preços dos alimentos.
O mercado reagiu rapidamente. Desde que os ataques se intensificaram, em meados de julho, o trigo chegou a acumular valorização próxima de 10% em Chicago, passando de cerca de US$ 6,45 para US$ 7,09 por bushel. Somente após o ataque de 12 de agosto ao terminal de Novorossiysk, o cereal voltou a subir aproximadamente 3% em um único pregão. O milho acompanhou o movimento.
Mas o que uma guerra tão distante tem a ver com o preço do pão, da carne e dos ovos no Brasil A resposta começa no mapa.
Rússia e Ucrânia estão entre os grandes participantes do comércio mundial de grãos. Qualquer ameaça aos embarques muda imediatamente as expectativas sobre a oferta.
O mercado não espera o produto faltar. Basta aumentar o risco de interrupção. Os compradores procuram outros fornecedores, os fretes e seguros ficam mais caros e as cotações passam a incorporar um prêmio de guerra.
A preocupação aumentou porque a Rússia rejeitou a possibilidade de uma trégua específica para a navegação no Mar Negro. A Ucrânia teria proposto a suspensão dos ataques contra navios civis, mas Moscou afirmou não ter recebido formalmente a iniciativa. Sem acordo, o risco permanece.
O trigo é a maior vulnerabilidade brasileira
O Brasil é uma potência agrícola, mas ainda depende do trigo importado. A Argentina é nosso principal fornecedor, porém o preço que chega aos moinhos acompanha as cotações internacionais, o dólar, o frete e a disponibilidade do produto. E existe um agravante: teremos uma safra menor.
A produção brasileira está estimada em aproximadamente 6,3 milhões de toneladas, uma queda próxima de 19% em relação ao ciclo anterior. A área plantada deve recuar cerca de 12,5%, e a produtividade também deve diminuir.
O Brasil, portanto, entra nesse período de instabilidade com menos trigo dentro de casa e maior necessidade de importação.
Se o cereal sobe no exterior e o real perde valor, a pressão chega aos moinhos. Depois, alcança farinha, pão, massas, biscoitos e outros produtos presentes diariamente na mesa das famílias.
É assim que uma explosão em um porto distante pode aparecer, semanas depois, no preço do café da manhã.
Por que o milho também sobe
No milho, o efeito é menos direto, mas igualmente importante. Quando o trigo fica caro e escasso, parte dos compradores pode usar o milho como substituto na alimentação animal, aumentando a procura pelo cereal.
No Brasil, o milho abastece aves, suínos, leite e ovos. Também ganhou espaço na produção de etanol. Diferentes setores, portanto, passaram a disputar o mesmo produto.
Uma valorização prolongada pode encarecer as rações, reduzir as margens dos criadores e, mais adiante, pressionar os preços das proteínas.
Ao mesmo tempo, o Brasil é grande exportador de milho e pode conquistar mercados diante das dificuldades enfrentadas por Rússia e Ucrânia. Para quem vende, pode surgir uma oportunidade. Para quem utiliza o grão como matéria-prima, aparece um custo maior.
Esse é um dos paradoxos do agronegócio: a mesma alta que beneficia o exportador pode prejudicar o produtor de proteína animal e pressionar o consumidor.
O risco não termina nos grãos
A guerra também encarece transporte, seguro marítimo, energia e combustíveis.
Petróleo mais caro pressiona o diesel, aumentando o custo de plantar, colher e transportar. A energia mais cara também pode alcançar os fertilizantes, especialmente os dependentes do gás natural.
Forma-se uma sequência perigosa: guerra, petróleo, frete, fertilizantes, grãos, ração e alimentos.
Nem todos esses aumentos chegam imediatamente ao consumidor. Mas, quanto mais tempo durar a instabilidade, maior será o risco de contaminação dos preços.
Dólar e capital estrangeiro
O Brasil também enfrenta uma mudança no comportamento dos investidores estrangeiros.
Os valores estão expressos em reais, e não em dólares. Até abril, os estrangeiros acumulavam entrada líquida de aproximadamente R$ 56,5 bilhões na Bolsa. Depois, o movimento mudou: houve retirada de cerca de R$ 14,9 bilhões em maio e de aproximadamente R$ 13,6 bilhões em agosto.
Não foi possível confirmar, pela mesma metodologia, uma saída acumulada exata de R$ 32 bilhões. Mas a inversão do fluxo está clara.
Parte desse movimento pode ser realização de lucros. Ainda assim, mostra maior cautela diante das tensões internacionais e das incertezas fiscais e políticas brasileiras.
Quando o capital sai, o dólar tende a subir. E dólar mais alto encarece trigo importado, fertilizantes, defensivos, combustíveis e equipamentos.
A guerra pode dificultar a queda dos juros
O Banco Central não reage a uma alta isolada do trigo ou do milho. O problema aparece quando vários preços começam a subir ao mesmo tempo.
Se petróleo, dólar, fretes, fertilizantes e alimentos avançarem de maneira persistente, as expectativas de inflação pioram. Nesse ambiente, reduzir os juros torna-se mais difícil.
O brasileiro pode, então, sentir o conflito duas vezes: primeiro, no supermercado e no posto de combustível; depois, na permanência do crédito caro.
Ainda não existe uma crise mundial de abastecimento. Há estoques, fornecedores alternativos e outras rotas comerciais. Mas o sinal de alerta está aceso.
Se os ataques continuarem, aquilo que hoje é um prêmio de risco poderá se transformar em falta efetiva de produto.
A lição é clara: ser um dos maiores produtores agrícolas do mundo não torna o Brasil imune às guerras.
Exportamos milho, mas importamos trigo. Produzimos alimentos, mas dependemos de fertilizantes estrangeiros, diesel, crédito, câmbio e logística internacional.
No mundo atual, a guerra não precisa chegar ao território brasileiro para atingir o produtor e o consumidor. Basta alcançar os portos por onde passa a comida do mundo.

Foto: Reprodução/Redes Sociais





