Cooperativa do Rio Grande do Sul, que enfrenta dívidas de R$ 1,4 bilhão, encerrou o contrato de Paulo Goulart, que assumiu em março.
Durou apenas seis meses a passagem de Paulo Goulart pelo cargo de CEO da cooperativa gaúcha Cotribá, que tentou recentemente entrar com um pedido de recuperação judicial após atravessar dificuldades financeiras, com dívidas de R$ 1,4 bilhão.
Em comunicado divulgado nos perfis das redes sociais da cooperativa nesta quinta-feira, dia 6 de agosto, a Cotribá informou que foi encerrado o ciclo de atuação de Goulart como CEO, sem trazer mais detalhes sobre como se desenrolou a saída do executivo, que passou a comandar a cooperativa em março e tinha contrato válido até 2028.
- Cotribá é a cooperativa agrícola mais antiga do Brasil, fundada em 1911.
- Dívidas com bancos e produtores somam mais de R$ 1,4 bilhão.
- Goulart tinha experiência em recuperação de empresas em crise.
- Cooperativa reduziu quadro de funcionários de 1.200 para cerca de 670.
- Justiça gaúcha rejeitou pedido de recuperação judicial da cooperativa.
Comunicação oficial
A cooperativa também não indicou se outro profissional entrará no lugar de Goulart ou se o cargo será extinto. A Cotribá afirmou ainda que essa transição faz parte do plano de reestruturação e recuperação que vem sendo conduzido pela atual administração e que todas as ações necessárias para o soerguimento da Cooperativa, com responsabilidade e planejamento foram consideradas para este momento.
A cooperativa disse também que o Conselho de Administração permanece totalmente comprometido com as iniciativas necessárias para fortalecer a cooperativa, preservar sua credibilidade e gerar resultados consistentes para seus associados.
A confiança dos associados, colaboradores, fornecedores, parceiros, instituições financeiras e da comunidade tem sido fundamental para o avanço desse trabalho. É com essa união e comprometimento que a Cotribá seguirá enfrentando os desafios, mantendo o foco na recuperação, na transparência e na geração de valor para seus cooperados, prossegue o comunicado.
A Cotribá reafirma seu compromisso de continuar trabalhando com responsabilidade, seriedade e dedicação, fortalecendo sua atuação e construindo um futuro sólido para todos que fazem parte desta história, encerra a cooperativa.
Turbulência na gestão
Paulo Goulart havia assumido o cargo de CEO em março, no lugar do professor universitário Luis Felipe Maldaner, que havia deixado o posto em janeiro deste ano após permanecer pouco mais de quatro meses no posto. Na mesma época, tomou posse a nova diretoria da Cotribá, com Carlos Diehl assumindo a presidência da cooperativa.
Diehl deu chancela total para Goulart fazer profundas transformações na cooperativa, apoiando-se na forte experiência do executivo na gestão de empresas em dificuldades. No período recente, antes de chegar à Cotribá, Goulart vinha atuando como CEO da Gocil, empresa paulista de serviços e segurança privada do Grupo Cinel, que está em RJ desde 2023. Além disso, em paralelo, lidera uma empresa, a Highway Capital, focada na gestão de ativos estressados.
Goulart disse ao AgFeed, em abril deste ano, que foi trazido à Cotribá por credores da cooperativa que o conheciam e imaginaram que o executivo poderia contribuir com a gestão. Ao chegar, o executivo prometeu imprimir uma lógica empresarial à cooperativa. A ideia de Goulart era, ao mesmo tempo, profissionalizar a gestão, renegociar as dívidas e diminuir a estrutura da cooperativa. Estamos implementando métodos e critérios de primeiro mundo, disse ao AgFeed, em abril passado.
Dívidas e reestruturação
Do lado das dívidas, o problema era - e continua - grande. Só a bancos e cooperativas de crédito, a Cotribá devia pelo menos R$ 527,1 milhões em maio passado, de acordo com uma lista de credores obtida pela reportagem. Para produtores rurais, o débito é maior, chegando à casa de R$ 900 milhões. Goulart vinha buscando renegociar essas dívidas e estudava modelos alternativos para venda de ativos e geração de liquidez para a cooperativa.
Do lado operacional, a cooperativa viu-se obrigada a reduzir o quadro de funcionários, que passou de 1,2 mil para cerca de 670 colaboradores. Também foi contratada uma auditoria independente para investigar a atuação das administrações anteriores. Ao mesmo tempo, a Cotribá tentou, sem sucesso, dar entrada com um pedido de recuperação judicial outra vez na Justiça do Rio Grande do Sul.
A cooperativa já tinha tentado expediente semelhante no fim do ano passado, iniciativa que terminou também malograda, culminando com a desistência da própria cooperativa de seguir com a ação, já no início de 2026. O presidente da Cotribá, Carlos Diehl, chegou a dizer ao AgFeed que a cooperativa havia entendido que não teria êxito na ação e que por isso havia desistido.
Mas, para surpresa geral do mercado, a Cotribá voltou à carga em abril deste ano. A cooperativa tentou outra vez a RJ e recebeu, inclusive, decisão inicial favorável em primeira instância, mas que depois foi rejeitada em instância superior do TJ-RS.
Mais recentemente, a Cotribá firmou um acordo com o Sindicato Intermunicipal dos Empregados em Cooperativas de Produção Agrícola do Rio Grande do Sul (Sinecoop-RS) para a quitação das verbas rescisórias e dos depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) devidos aos funcionários que foram demitidos ao longo de 2026. A cooperativa propôs pagamento imediato de 49% das rescisões de menor valor e quitação das demais rescisões em 24 parcelas mensais a partir de setembro deste ano.
Com sede em Ibirubá (RS), a Cotribá é a cooperativa agrícola mais antiga do Brasil, criada em 1911, e soma aproximadamente 9,5 mil associados. Com foco no recebimento e armazenagem de grãos, possui 55 pontos de negócios espalhados em 21 municípios do estado do Rio Grande do Sul. No ano passado, a cooperativa faturou R$ 1,9 bilhão. Há dois anos, tinha uma receita de R$ 3,3 bilhões.
Procurada pelo AgFeed, a Cotribá informou, via assessoria de imprensa, que não iria se manifestar sobre o assunto. O ex-CEO, Paulo Goulart, não retornou aos contatos da reportagem.

Paulo Goulart, ex-CEO da Cotribá





