Takhi, o cavalo selvagem que voltou a viver livre na Mongólia

Geral Takhi 23/08/2026 08:12 Rafael Cardoso - Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

Conheça a história do Takhi, cavalo selvagem que foi extinto na natureza e hoje é símbolo de recuperação ambiental na Mongólia.

No Parque Nacional Hustai, na Mongólia, 354 cavalos selvagens chamados takhi vivem livres pelos morros e planícies. Esse animal foi extinto na natureza por quase 30 anos, mas voltou a viver no país graças a um projeto de recuperação com pesquisadores locais e estrangeiros.

O cavalo é um dos principais símbolos da Mongólia. Ele aparece em roupas, brinquedos, murais e marcas. Trazê-lo de volta é devolver um motivo de orgulho nacional, diz o diretor do parque, Dashpurev Tserendeleg.

  • O takhi é o único cavalo verdadeiramente selvagem que existe hoje.
  • Ele tem 66 cromossomos, enquanto o cavalo doméstico tem 64.
  • O último takhi selvagem foi visto em 1968.
  • Em 1992, 15 cavalos voltaram à Mongólia para começar a reintrodução.
  • Hoje, há cerca de 800 takhis no país.

"Takhi significa respeito e adoração. Fala do espírito livre e da resistência. São animais muito especiais para os mongóis", disse Tserendeleg à Agência Brasil.

Conhecido no mundo como cavalo-de-Przewalski, o animal ganhou esse nome depois que o explorador russo Nikolai Przhevalsky enviou exemplares da Ásia Central para cientistas europeus no fim do século 19.

O takhi é considerado o único cavalo que nunca foi domesticado. Outros cavalos chamados selvagens são, na verdade, descendentes de cavalos domésticos que voltaram a viver livres.

Além disso, o takhi tem diferenças genéticas: possui 66 cromossomos, enquanto o cavalo doméstico tem 64. Ele é um pouco menor, tem o focinho mais claro e a cauda menos cheia.

Da captura à extinção

Quando os europeus descobriram o animal, logo quiseram capturá-lo para coleções e zoológicos. Entre 1897 e 1903, expedições capturaram 88 cavalos na Mongólia. Apenas 54 chegaram vivos ao destino e somente 12 deixaram filhotes.

Enquanto isso, os cavalos selvagens sumiram. O último foi visto em 1968. Depois disso, nenhum apareceu, e a espécie foi declarada extinta na natureza. A sobrevivência passou a depender dos animais que viviam fora de seu habitat.

Na década de 1970, um grupo de conservacionistas holandeses criou um programa para reproduzir e aumentar a população em cativeiro.

Os animais foram levados para reservas com condições parecidas com a vida selvagem, e cientistas começaram a planejar o retorno à Mongólia, em parceria com a Associação Mongol para a Conservação da Natureza e do Meio Ambiente.

Em 5 de junho de 1992, 15 cavalos chegaram à Mongólia para começar a reintrodução em Hustai. Até 2000, foram feitas cinco viagens, levando 84 animais ao país.

Antes de serem soltos de vez, os cavalos passaram por um período de adaptação em áreas cercadas.

"Eles tinham passado algumas gerações na Europa e em outros lugares com clima mais ameno e praticamente tinham esquecido tudo: o que era neve, o que era um lobo", disse o diretor. "Se fossem soltos direto na natureza, não sobreviveriam".

A adaptação deu certo. A população cresceu e passou a se reproduzir livremente. Além dos mais de 300 animais do parque, há outras duas populações em áreas protegidas da Mongólia, totalizando cerca de 800 animais no país.

Para Tserendeleg, esse caso mostra que a cooperação internacional pode evitar o desaparecimento de uma espécie. O parque, criado por causa do projeto, abriga hoje uma das três populações do animal.

"Esse é o nosso maior sucesso. É algo de que temos muito orgulho: o povo mongol e nossos colegas internacionais conseguiram salvar esse grande mamífero da extinção total e dar a ele um bom futuro", afirmou.

Desafios para manter a espécie

Com 50 mil hectares, Hustai é um dos menores parques nacionais da Mongólia. A área é administrada por uma ONG, sem dinheiro regular do governo. Cerca de 90% da receita vem do turismo.

A conservação do takhi nos próximos anos depende da proteção das estepes, que estão ameaçadas pelas mudanças climáticas e pelo aumento do número de animais domésticos, que prejudicam o solo.

A Mongólia tem hoje cerca de 58 milhões de animais de rebanho, segundo o censo de 2025. São principalmente ovelhas, cabras, vacas e cavalos. O excesso de animais em algumas áreas, junto com secas e invernos muito frios, tem causado a degradação dos pastos.

A proteção e a recuperação da terra são temas importantes na 17ª Conferência da ONU sobre Desertificação (COP17), que acontece em Ulaanbaatar, capital do país. O evento reúne governos para discutir como combater a desertificação, restaurar terras e aumentar a resistência à seca.

Ao redor do parque, a ideia é criar outras formas de renda para as famílias nômades, para que elas não dependam só da pecuária e não precisem aumentar os rebanhos.

O parque apoia projetos como turismo comunitário, agricultura em estufas e artesanato.

"Se os pastores tiverem outras fontes de renda, não precisarão aumentar tanto o número de animais", explicou Tserendeleg. "Se a natureza estiver bem protegida, o parque também estará mais protegido".

O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de vários continentes.


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