A safra 2026/2027 terá custos altos e crédito mais difícil, por isso a gestão financeira será tão importante quanto a produtividade. Saiba como os produtores podem proteger suas margens.
Na safra de 2026/2027, cuidar bem do dinheiro vai ser tão importante quanto produzir bem. Com custos altos, juros elevados e crédito mais difícil, quem conseguir controlar gastos, melhorar processos e pegar empréstimos certos para o momento vai proteger sua margem e manter a fazenda de pé para as próximas colheitas.
O agro brasileiro não perdeu competitividade. O país continua com escala, tecnologia, produtividade e grande presença no comércio global de alimentos.
- Os custos de fertilizantes, diesel e defensivos estão pesando mais no bolso do produtor.
- Em Mato Grosso, o custo para plantar soja, milho e algodão já subiu.
- Os bancos estão mais exigentes na hora de emprestar dinheiro para a fazenda.
- A CPR, um título de crédito do agro, já soma R$ 561 bilhões em estoque.
- Em 2025, o agro teve quase 2 mil pedidos de recuperação judicial, um recorde.
Por que os custos subiram
Soja, milho, algodão, carnes, açúcar e café continuam vendendo bem no exterior. Mas as margens estão apertadas por causa dos custos altos, juros elevados e o clima com El Niño. Por isso, além de produzir bem, o produtor precisa de uma gestão de negócio forte, com governança.
Os gastos com fertilizantes, diesel, defensivos, fretes e financeiros ganharam peso no custo de cada hectare. Em Mato Grosso, dados do Imea para a safra 2026/27 já mostram alta no custo de soja, milho e algodão, principalmente por causa de fertilizantes e combustível.
Isso mostra que a safra já começa apertada na compra dos insumos, antes mesmo de o produtor enfrentar clima, câmbio ou preço de venda.
Mudança na gestão
Com margens menores, a decisão financeira muda. Antes, dava para expandir área, comprar insumos e ter produtividade para compensar os problemas. Agora, o produtor precisa pensar melhor quando comprar, como estruturar as dívidas, que garantias oferecer e como vender a safra.
A relação de troca também virou importante. Se é preciso mais sacas para comprar o mesmo pacote de insumos, a margem depende tanto da lavoura quanto do caixa da fazenda.
Crédito mais seletivo
Por isso, os bancos estão mais seletivos na hora de liberar crédito. O dinheiro até existe, mas as avaliações estão mais conservadoras.
Bancos, tradings e investidores olham com atenção para o nível de endividamento, quanto da área é própria ou arrendada, histórico de pagamento, governança, garantias e previsibilidade de caixa.
Quem depende muito de arrendamento ou usa capital de giro de terceiros sente mais cedo o efeito desse ajuste. Não é uma retração geral do crédito, mas uma diferença mais clara entre quem tem mais ou menos risco.
CPR e novas formas de financiamento
A Cédula de Produto Rural (CPR) é um bom exemplo. Ela ganhou espaço porque permite financiar de forma mais ligada ao ciclo produtivo, com garantias e fluxos de caixa que combinam com a realidade da atividade.
Segundo dados do Ministério da Agricultura, o estoque desses títulos chegou a R$ 561 bilhões em fevereiro de 2026. Isso mostra que o financiamento do agro não é mais só com as linhas tradicionais de crédito. Ele envolve bancos, mercado de capitais, tradings, cooperativas e investidores.
Geopolítica e recuperação judicial
A geopolítica também aumenta a necessidade de uma gestão mais cuidadosa. Conflitos no Oriente Médio afetam o preço do petróleo, do frete e dos fertilizantes, três itens importantes para o produtor brasileiro.
Como o Brasil importa muitos insumos para a lavoura, qualquer problema na oferta ou na logística logo aparece no custo de produção. O produtor pode cuidar bem da lavoura, mas vai ver o resultado diminuir por causa de coisas que ele não controla.
O número de recuperações judiciais no agro aumentou. Segundo a Serasa Experian, o setor teve quase 2 mil pedidos em 2025, o maior desde quando a empresa começou a acompanhar.
Esse número não significa que o agronegócio está quebrado. Ele indica que existe um limite financeiro, considerando o que o produtor consegue aguentar.
Quando juros, custos e preços deixam pouca margem, dívidas mal planejadas levam a resultados ruins e corroem a estrutura da fazenda.
O que esperar da próxima safra
A próxima safra deve premiar produtores que tratam a fazenda como uma empresa intensiva em capital, com controle de custos, informação financeira, planejamento comercial, garantias bem estruturadas e disciplina na hora de pegar crédito. Esses fatores serão essenciais para continuar produzindo.
Agricultura de precisão, uso eficiente de insumos e redução de desperdícios deixam de ser apenas temas operacionais. Eles passam a influenciar diretamente a capacidade de pagamento e a qualidade do risco.
O financiamento privado deve ganhar mais espaço nessa transição. CPR, CRA, LCA, Fiagro e FIDCs ampliam as fontes de recursos e reduzem a dependência de uma única linha de crédito.
Isso traz oportunidades, mas também exige mais. Quanto mais o mercado participa, mais o produtor precisa de transparência, previsibilidade de fluxo de caixa e boa governança.
O Brasil vai continuar sendo um dos principais fornecedores de alimentos do mundo. Essa posição não está ameaçada. Mas a safra 2026/27 vai testar outra parte da competitividade: transformar produtividade em resultado financeiro.
No ciclo que vem, plantar bem continua essencial. E financiar bem será igualmente decisivo para ter boas colheitas.

Gilson Fernandes





