Autor do livro 'As lições da Copa', o treinador tricampeão conta como o segundo gol, do Gérson, mudou tudo e transformou a final contra a Itália em festa. O texto original traz trechos emocionantes do livro sobre a conquista em 1970.
O momento em que a vitória começou no México
O livro As lições da Copa reúne memórias do treinador e tricampeão mundial Mario Jorge Lobo Zagallo (1931-2024), registrando a história da inesquecível conquista do tricampeonato brasileiro, no México, em 1970. Ao relembrar a vitória contra a Itália na final, Zagallo destacou que a festa começou no segundo gol, na etapa final.
Aproximar-se de Gérson foi um momento. O treinador descreveu: Aproximei-me do grande jogador. Passei-lhe a mão pela cabeça. Vi o Chirol perto de mim; chegou correndo, aos pulos. Chirol ajoelhou-se também, também chorou ajoelhado.
Zagallo completou: Acho que ambos rezavam. Eu nunca deixei de rezar antes dos jogos e na concentração. Mas, ali, só os dois rezavam. Só eles sabem o que diziam na oração, mais balbuciada que falada.
Veio então uma frase de impacto: Quanto bem faz à alma de cada um de nós a comunhão de todas as almas. Voltamos ao banco assim como se estivéssemos ungidos; leves, leves.
- O gol de Gérson abriu a celebração antes da vitória. Ninguém acreditava mais que a Itália reagisse. O gol de Gérson antecipou a festa.
- A loucura tomou conta de todos. A invasão de campo, prevista para o final, começou antes. O gol a precipitou.
- A Itália, favorita, despencou já no segundo tempo. A seleção brasileira subiu de produção e a partida virou festa.
- A seleção italiana deixou a defesa tida como inexpugnável com três gols. O Brasil virou tricampeão mundial.
- Zagallo, campeão como jogador em 1958 e 1962, sentiu o triunfo também como treinador.
O gol que selou o tricampeonato
Em um instante decisivo, Jairzinho firmou o 3 a 1. Cinco minutos depois, minutos de ansiedade terrível, Jairzinho decretou a tranqüilidade ao coração de toda a nossa gente. O Imperador ajoelhou-se também; fez o sinal da cruz duas vezes, chorando.
Zagallo acrescentou: O Imperador Jairzinho encheu o mapa colorido pela nossa imaginação. Não havia mais dúvida, estava na cara que seríamos tricampeões.
Uma apoteose com lágrimas
A quarta jogada coroou o futebol coletivo da seleção: Tostão, Clodoaldo, Rivellino, Jairzinho, Pelé e o capitão Carlos Alberto. Íamos ao final do jogo, só quatro minutos restavam. É quando Carlos Alberto incumbiu-se do desfecho de ouro.
Zagallo relatou: Todos se precipitaram. O time brasileiro correu de forma brilhante; o final não poderia deixar de ser apoteótico. A apoteose custou muitas lágrimas, mas como se torna gostoso ver a gente chorar de emoção intensamente jubilosa, relatou o comandante do tri.
O choro do treinador
Zagallo, campeão em 1958 e 1962, sentia o gosto de título como treinador, mas também o vazio do momento. As comemorações recrudesceram. Todo mundo cantava, pulava e vibrava numa confusão infernal.
Mas comigo ocorreu o oposto. Muito havia chorado, em 1958 e 1962, sendo natural que voltasse a chorar sem medida. Não havia como. Teve, então, uma frase final: Aquela seria a minha hora de pôr para fora tudo que minha alma havia engolido. Tive peito para colocar minha carreira em xeque ao aceitar o comando da seleção, mas o peito faltou-me ali.
Fonte: Jovem Pan
Zagallo - MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO CONTEÚDO





