Pedro Sánchez decidiu antecipar as eleições espanholas para 29 de novembro após uma onda de protestos históricos contra o alto preço dos aluguéis. A decisão é um risco político para o governo, que perdeu o apoio da oposição após o derrubamento de leis de proteção aos inquilinos, especialmente após o caso viral da idosa Maricarmen.
Berlim, Alemanha Após um fim de semana intenso, em que dezenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas da Espanha exigindo soluções para a falta de moradia, o primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou nesta segunda-feira (5) a dissolução do Parlamento. Com essa decisão, o líder convocou eleições antecipadas para o país, marcadas para o dia 29 de novembro.
Sánchez aposta agora na insatisfação da população para tentar superar a oposição no Congresso. Na semana anterior, o parlamento tinha derrubado dois decretos do governo federal voltados para a habitação. A decisão foi agravada pela repercussão internacional do despejo de uma idosa de 87 anos, caso que expôs a gravidade da crise habitacional espanhola, uma das mais severas entre as capitais europeias.
- O líder Sánchez antecipou as eleições para 29 de novembro devido à pressão popular.
- Dezenas de milhares de espanhóis protestaram contra os altos preços dos aluguéis.
- O caso da idosa Maricarmen, de 87 anos, virou símbolo do movimento.
- O acampamento na Puerta del Sol, em Madri, conta com mais de 1.200 tendas.
- A oposição prometeu fechar o "capítulo" do governo com as novas eleições.
Discurso de Sánchez e resposta da oposição
"Precisamos renovar o apoio da população", afirmou Sánchez em discurso oficial. "Precisamos nos mobilizar e conquistar uma maioria progressista muito maior no parlamento, que nos permita superar os interesses estabelecidos, alcançar novos avanços sociais e continuar transformando a Espanha."
Do outro lado, Alberto Núñez Feijóo, do Partido Popular, principal nome da oposição, declarou que "finalmente" o país poderá "fechar esse capítulo e abrir outro melhor". "É uma escolha entre corrupção e decência, entre declínio e prosperidade, entre um governo que aspira apenas a sobreviver e um país que olha para o seu futuro", declarou o conservador em entrevista, logo após o anúncio feito pelo premiê.
Tentar impulsionar o Partido Socialista, com o qual Sánchez governa em situação de minoria, é uma manobra considerada de alto risco por analistas políticos. Pesquisas de opinião indicam que o bloco de esquerda está enfraquecido no país, após uma série de escândalos envolvendo o entorno do primeiro-ministro e a condução da crise imigratória na cidade de Ceuta.
"Também sei que parte dessa maioria social está insatisfeita hoje", disse Sánchez em seu pronunciamento. Segundo o líder socialista, uma das vozes mais à esquerda na União Europeia, buscar a maioria no Congresso é uma tarefa necessária para manter a Espanha como "um bastião da abertura, da justiça social e da responsabilidade ambiental".
Medidas contra a crise habitacional
As medidas elaboradas por Sánchez para enfrentar a onda de protestos incluíam a proibição de despejos de inquilinos vulneráveis até o ano de 2030. O pacote também previa a prorrogação do congelamento do aluguel por mais dois anos para contratos já em vigor, além de regras mais rígidas para as locações de curto prazo.
Um acampamento montado na Puerta del Sol, o marco zero de Madri, transformou-se no símbolo do movimento. O protesto, que começou há pouco mais de uma semana, vem atraindo cada vez mais adeptos. Segundo o Sindicato dos Inquilinos, um dos organizadores da mobilização, há mais de 1.200 tendas registradas no local.
Os manifestantes haviam afirmado que não abandonariam o local até a aprovação dos "decretos Maricarmen", nome dado em homenagem a Maricarmen Abascal, de 87 anos. Na quarta-feira (23), as cenas da polícia retirando a idosa de maca do apartamento em que viveu por sete décadas correram o mundo e deram novo gás ao movimento.
Os decretos foram derrubados pela oposição na sexta-feira (2) com ajuda do partido separatista catalão Junts. Esse grupo emprestava apoio intermitente a Sánchez, desde que o premiê negociou uma anistia a seus dirigentes em troca de apoio à sua coalizão de governo. Segundo os críticos, o pacote não tinha capacidade de resolver o problema e ainda restringiria o mercado imobiliário espanhol.
O gabinete de Sánchez estuda submeter novos decretos, com redação modificada, à Diputación Permanente. Esse é um órgão parlamentar espanhol que funciona às vezes no lugar do Congresso em períodos de férias e entre legislaturas. Nesse grupo legislativo, as chances de aprovação do governo são consideradas melhores.
Jovens e luta por moradia
O assunto mobiliza principalmente os jovens, que são a faixa de idade mais afetada pela disparada dos preços dos aluguéis. Segundo o Conselho da Juventude da Espanha, as locações dobraram de valor na última década. "Essa luta não vai esperar por nenhum calendário eleitoral", declarou Alicia del Río, porta-voz do Sindicato de Inquilinos.
O grupo defende a realização de uma greve geral e convidou associações que defendem outras causas, como a melhora em aposentadoria, educação e salários, para engrossar a manifestação permanente na Puerta del Sol. A Justiça local negou um pedido de reintegração de posse feito pela prefeitura de Madri.
"Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e nos empenhamos em construir um mundo melhor. Apoiamos a Ucrânia, a UE e a ONU, combatendo os tiranos e os tecnoligarcas", declarou Sánchez, sublinhando o peso internacional de seu governo. O premiê, entre outros pontos em sua trajetória, é uma das vozes mais críticas na Europa ao presidente americano, Donald Trump.
Líder do Vox, Santiago Abascal não vê favoritos nas eleições em novembro, apesar das pesquisas indicarem favoritismo do bloco de direita. "As pesquisas diziam o mesmo em 2023, e Sánchez conseguiu formar uma maioria com todos os seus cúmplices", afirmou o líder de ultradireita em entrevista ao canal Antena 3.

Reuters





