Documentos mostram que polícia tinha reforçado segurança perto de Haddad antes do caso

Politica Segurança 02/09/2026 09:19 João Vitor Revedilho / Jovem Pan jovempan.com.br

A Polícia Militar de São Paulo já havia ordenado o aumento do patrulhamento na região do Planalto Paulista alguns dias antes de um incidente envolvendo o motorista do candidato ao governo de SP, Fernando Haddad.

Documentos obtidos com exclusividade pela Jovem Pan mostram que a Polícia Militar do Estado de São Paulo já havia reforçado o patrulhamento na região do Planalto Paulista, na Zona Sul da capital, antes do episódio envolvendo o motorista do candidato do PT ao governo do estado, Fernando Haddad. As ordens internas que determinaram o envio de equipes especializadas para a área foram emitidas poucos dias antes da ocorrência.

Em 7 de agosto, quatro dias antes do incidente, a PM expediu uma ordem que determinava o uso da Força Tática e da ROCAM (Ronda Ostensiva Com Ação Motorizada) entre 14h e 23h nas imediações da Avenida Indianópolis para combater crimes classificados como "roubo outros". A orientação estabelecia atenção especial diariamente entre 18h e 22h.

  • O reforço policial na região ocorreu quatro dias antes do episódio com o motorista de Haddad.
  • Uma operação específica contra quebra-vidros no trânsito estava em andamento na área.
  • As ações policiais foram definidas após uma reunião na Prefeitura de São Paulo.
  • Outro carro foi parado por suspeita de furto na mesma noite, perto do local.
  • O Ministério Público Eleitoral considerou a explicação da PM "inverossímil".

No dia seguinte, em 8 de agosto, foi expedida outra ordem, desta vez criando a Operação Impacto Quebra Vidros. A ação tinha como objetivo combater roubos e furtos praticados contra motoristas parados no trânsito, quando criminosos quebram os vidros dos veículos para levar celulares, mochilas, carteiras e outros objetos. A operação estava prevista para continuar até 30 de setembro.

As duas ordens de serviço foram resultado de uma reunião que aconteceu dias antes, no dia 23 de julho, realizada na Prefeitura Municipal com a participação do vice-prefeito Ricardo Mello Araújo (PL).

Segundo a PM, foi registrado um caso de quebra de vidro horas após Haddad chegar em casa. Por volta das 23h10, policiais foram acionados após relatos de furtos de veículos em trânsito na Avenida Indianópolis. Os agentes encontraram um carro com dois adolescentes e um adulto, apreendendo celulares e outros objetos que estavam com eles. Um quarto adolescente também foi localizado e apontado como autor do furto de um celular. O caso foi registrado no 27º Distrito Policial.

Outro chamado levou equipe à região

Outra equipe da PM, a M-12090, que posteriormente encontrou a M-12070 na Rua Joinville, estava inicialmente envolvida em uma ocorrência diferente. De acordo com o inquérito interno da PM, os policiais receberam pelo COPOM (Centro de Operações da Polícia Militar) informações sobre um roubo a uma farmácia na Praça General Gentil Falcão. A equipe procurava um Renault Logan que teria sido utilizado pelos criminosos, mas não localizou o veículo e retornou para a região da 2ª Companhia.

Na sequência, os policiais receberam informações sobre a possibilidade de roubo ou furto em um condomínio na Rua Tomás Carvalhal, nas proximidades do Hotel Pullman. Foi esse segundo chamado que levou a equipe para a região da Rua Joinville, local onde ocorreu o encontro com a outra viatura.

O relatório faz uma distinção entre as ocorrências: o roubo à farmácia não foi o motivo autônomo para a presença da M-12070 no Hotel Pullman, mas integra o contexto operacional da equipe M-12090 antes do encontro.

Conversas e dados de GPS

Como a Jovem Pan mostrou anteriormente, a Polícia Militar utilizou prints de conversas entre sargentos e o depoimento de ambos para justificar o encontro de viaturas que supostamente teriam seguido o motorista de Fernando Haddad. A PM ainda usou dados de GPS das viaturas para contrapor o depoimento do funcionário do petista.

Segundo o processo que concluiu que não houve perseguição ao motorista o encontro das equipes M-12070 e M-12090 da Polícia Militar na Rua Joinville, no bairro de Indianópolis, foi previamente combinado para o atendimento a uma ocorrência. A equipe do sargento Elder, que estava na viatura M-12070, teria recebido uma informação sobre a possibilidade de roubo ou furto a um condomínio na região do Hotel Pullman, seguindo para o local.

Segundo o depoimento de um dos policiais da equipe, o sargento Elder informou que faria contato com outra equipe de Força Tática, e combinou a parada da viatura na Rua Joinville para aguardar o reforço. Cerca de dez minutos depois, por volta das 22h35, a outra equipe, a M-12090, comandada pelo sargento Jesus, chegou ao local. Segundo a investigação, as equipes receberam verbalmente a informação sobre o possível crime em condomínio.

Em uma troca de mensagens via WhatsApp, o sargento Elder escreveu "QTI agulhas", às 22h16, indicando deslocamento. Depois, mandou sua localização para o sargento Jesus e perguntou: "Vai fazer um QSO", às 22h25. É nesse horário que, segundo o documento, a viatura de Elder para próxima ao carro do motorista de Haddad para aguardar.

Na linguagem da polícia, essas siglas fazem parte do Código Q, um sistema internacional de radiocomunicação criado para tornar as mensagens mais rápidas, claras e padronizadas. No caso, QTI significa um questionamento sobre a rota da viatura, ou pode indicar que o carro está em deslocamento. Já o QSO significa contato ou comunicação direta. Depois, uma ligação é feita entre eles às 22h34.

Nesse horário, o carro do motorista de Haddad já tinha deixado o local, o que aconteceu por volta das 22h26. Já nos depoimentos, a PM entendeu que os relatos de Elder e Jesus batem: Elder diz que ele estacionou a M-12070 na altura do nº 490 da Rua Joinville e solicitou a presença da equipe de Jesus por meio de mensagem de aplicativo. Jesus, por sua vez, confirmou que houve contato com a equipe da M-12070 e que ambas permaneceram na Rua Joinville.

O relatório da investigação afirma que a captura de tela, em conjunto com os depoimentos dos policiais e outros integrantes das duas equipes, explica o direcionamento da M-12070 à região e a reunião posterior das duas equipes na Rua Joinville. As viaturas permaneceram juntas até aproximadamente 22h55.

Justificativa chamada de "inverossímil"

Vale dizer que, na segunda-feira (31), um relatório do Ministério Público Eleitoral (MPE) arquivou o procedimento que apurava uma possível abordagem policial irregular ao motorista que trabalha para a campanha de Fernando Haddad. O arquivamento, determinado pela Procuradoria Regional Eleitoral, porém, não encerra a apuração criminal.

Ao determinar o arquivamento, a Procuradoria afirmou que não havia elementos para atribuir ao governador e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), eventual ilícito eleitoral. O documento, porém, faz uma ressalva sobre a versão apresentada pela Polícia Militar.

Segundo o procurador eleitoral, a análise dos elementos do caso "afasta por completo a verossimilhança de uma 'mera coincidência' no patrulhamento ordinário". Para ele, é "inverossímil" que, em um intervalo de 44 minutos e em uma área geográfica restrita, duas equipes diferentes da Força Tática, pertencentes a batalhões distintos, tenham tido sucessivos contatos com o mesmo veículo.


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