Quando a emoção vira um enigma: entenda a alexitimia

Saúde Saude 17/08/2026 09:16 Paulo Novais - Tinteiro Assessoria de Imprensa

Alexitimia é a dificuldade de identificar e expressar emoções, muitas vezes confundida com frieza. Pode se manifestar como sintomas físicos e estar associada ao autismo. Saiba como reconhecer e lidar com essa condição.

Há pessoas que percebem o coração acelerar, o estômago embrulhar, os músculos ficarem tensos ou surge uma vontade repentina de se afastar, mas não conseguem dizer exatamente o que estão sentindo. Sabem que alguma coisa mudou, mas não identificam se é ansiedade, tristeza, raiva, frustração ou cansaço.

Esse desencontro entre o que acontece no corpo e a capacidade de compreender e colocar em palavras a própria experiência emocional pode estar relacionado à alexitimia, uma característica do funcionamento emocional que envolve dificuldades para identificar, diferenciar e expressar sentimentos.

  • A alexitimia não é falta de emoção, mas dificuldade em reconhecê-las.
  • Pode ser confundida com frieza ou indiferença.
  • Muitas vezes, o corpo dá sinais como dores e tensão.
  • É mais comum em pessoas autistas, mas não é exclusiva.
  • Com ajuda profissional, é possível aprender a lidar melhor.

A alexitimia pode fazer parte de diferentes formas de funcionamento da personalidade e estar relacionada a diversos fatores ao longo da história de uma pessoa. Ela também pode aparecer associada a diferentes condições psicológicas e do neurodesenvolvimento. Isso significa que não existe uma única explicação para sua presença.

A alexitimia não quer dizer que a pessoa não sinta. Muitas vezes, ela sente, mas não consegue reconhecer com clareza o que acontece internamente ou encontrar palavras para comunicar isso, explica a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa, @psicologaluanda, especialista em avaliação neuropsicológica de adultos e em autismo na adolescência e na vida adulta.

O corpo dá o primeiro sinal

Uma reação emocional costuma produzir mudanças físicas: os batimentos aceleram, a respiração se altera, o corpo fica em alerta e a musculatura pode se contrair. O desafio, para algumas pessoas, está em relacionar essas alterações ao que aconteceu e reconhecer o significado da experiência.

É como se o corpo enviasse uma mensagem, mas faltasse uma forma clara de traduzi-la.

É como receber sinais internos sem um sistema de tradução. A pessoa percebe que algo mudou, mas não identifica a mensagem emocional por trás daquela mudança, afirma Luanda.

Esse processo também envolve a interocepção, capacidade de perceber o que acontece dentro do próprio corpo. Fome, sede, cansaço, temperatura, dor, batimentos cardíacos e sensações associadas às emoções fazem parte desse sistema.

Quando essa leitura é confusa ou pouco acessível, a pessoa pode demorar para perceber que está cansada, ansiosa, irritada ou emocionalmente sobrecarregada.

Quando o comportamento parece frieza

A dificuldade de expressar emoções pode afetar relacionamentos. Alguém pode se importar profundamente com o parceiro, perceber o sofrimento de um familiar ou sentir carinho por um amigo, mas não saber como demonstrar isso.

O silêncio pode ser interpretado como desinteresse. Uma resposta objetiva pode parecer rejeição. A ausência de palavras de conforto pode ser confundida com falta de empatia.

Sentir, reconhecer, expressar e comunicar são etapas diferentes. Uma pessoa pode ter dificuldade em uma delas e preservar as outras, explica a neuropsicóloga.

Com o tempo, os desencontros podem afetar a autoestima. A pessoa passa a acreditar que é fria, distante ou incapaz de manter vínculos, quando, na realidade, pode enfrentar uma dificuldade específica no processamento e na comunicação emocional.

Quando o sofrimento aparece no corpo

A alexitimia pode dificultar o reconhecimento de ansiedade, tristeza e esgotamento. Algumas pessoas seguem trabalhando, estudando e cuidando da família até atingir o limite. Só depois percebem que estavam sobrecarregadas.

O sofrimento pode vir acompanhado de dor de cabeça, insônia, tensão muscular, alterações gastrointestinais ou uma sensação persistente de mal-estar. Esses sintomas não devem ser automaticamente atribuídos às emoções: queixas físicas precisam ser investigadas clinicamente.

A atenção está na combinação de sinais. Quando o desconforto aparece repetidamente em situações de estresse e a pessoa não consegue identificar o que está vivendo, pode ser útil investigar também sua forma de perceber e regular emoções.

A pessoa pode procurar ajuda dizendo que tem um problema físico, quando também existe dificuldade para perceber que está triste, ansiosa ou sobrecarregada. Uma investigação responsável precisa considerar as duas dimensões, afirma Luanda.

A relação com o autismo

A alexitimia aparece com maior frequência em pessoas autistas, mas não é sinônimo de autismo e não está presente em todos os indivíduos no espectro. Ela também pode ocorrer em outros contextos, como depressão, ansiedade, traumas e transtornos alimentares.

No autismo, dificuldades para reconhecer emoções podem ocorrer junto a diferenças no processamento sensorial e na interocepção. Ruídos, luzes, cheiros, mudanças de rotina e interações sociais podem provocar sobrecarga antes que a pessoa consiga compreender o motivo do desconforto.

Alguns pacientes só percebem que estavam no limite quando já precisam se isolar, interromper uma atividade ou lidar com uma crise. O corpo vinha dando sinais, mas esses sinais não foram interpretados a tempo, explica a especialista.

Quando investigar

É comum que uma pessoa reconheça alguns desses padrões e tente encontrar sozinha uma explicação. Mas identificar características de alexitimia não revela, por si só, sua origem.

A dificuldade pode estar relacionada a diferentes aspectos da história de vida, do funcionamento psicológico e do perfil neurocognitivo. Por isso, a avaliação precisa considerar o conjunto de informações e não apenas um comportamento isolado.

A avaliação neuropsicológica permite olhar para a pessoa de maneira mais ampla, considerando sua história de desenvolvimento, funcionamento cognitivo, aspectos emocionais e comportamentais e a forma como tudo isso aparece no cotidiano.

Mais importante do que simplesmente identificar uma característica é compreender como ela se manifesta naquela pessoa, quais impactos provoca e quais outros aspectos do funcionamento podem estar relacionados a ela, explica Luanda.

A investigação também pode ajudar a diferenciar alexitimia de outras situações que produzem dificuldades semelhantes, como ansiedade, depressão, trauma, TDAH ou características do espectro autista.

Uma dificuldade, não uma identidade

A alexitimia não define o caráter de uma pessoa, não indica incapacidade de amar e não permite concluir que alguém seja indiferente. Também não deve ser usada para justificar a ausência de comunicação ou de responsabilidade em uma relação.

Seu reconhecimento pode, entretanto, reduzir julgamentos e favorecer formas mais adequadas de comunicação. Em vez de interpretar automaticamente o silêncio como desinteresse, familiares e parceiros podem compreender que existe uma dificuldade específica de perceber e expressar a experiência emocional.

Compreender a alexitimia não elimina a responsabilidade de construir relações mais cuidadosas. Mas permite trocar o julgamento por estratégias e buscar formas de expressão mais acessíveis para cada pessoa, conclui Luanda.


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