Orgulho LGBT de servidores transborda empatia no serviço público

VARIEDADES Orgulho 28/06/2026 09:07 Beatriz Coutinho - Extra extra.globo.com

Funcionários públicos contam como ajudam outras pessoas da comunidade LGBT a conseguir direitos e oportunidades, mostrando a importância da representatividade no serviço público.

Há exatos 57 anos, explodia nas ruas de Nova York uma rebelião de pessoas LGBTQIAPN+ contra uma batida policial no bar gay Stonewall Inn. Essa revolta deu origem ao Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado todo dia 28 de junho, neste domingo. Desde então, a comunidade conseguiu muitas conquistas.

  • No Brasil, os cartórios são obrigados a fazer casamentos homoafetivos desde 2013.
  • Em 2016, um decreto garantiu o nome social para pessoas trans e travestis.
  • O STF decidiu, em 2019, que homofobia e transfobia são crimes de racismo.
  • O projeto Garupa, da Prefeitura do Rio, já fez mais de 6.300 atendimentos entre 2025 e 2026.
  • A Zona Oeste do Rio é a região com mais casos de violência contra LGBT+.

No Brasil, os cartórios são obrigados a realizar casamentos homoafetivos desde 2013. Em 2016, um decreto garantiu o nome social a pessoas trans e travestis, e o Supremo Tribunal Federal (STF), em 2019, enquadrou a homofobia e a transfobia como crimes de racismo.

Mas para esses direitos funcionarem de verdade, é preciso que as pessoas os conheçam e consigam acessá-los. Mais do que isso, é necessário garantir direitos básicos como saúde, educação, alimentação, trabalho e moradia. É aqui que o serviço público entra em ação.

Na Prefeitura do Rio, o projeto Garupa ajuda o público LGBT+ a ter acesso à saúde, documentos, abrigo, emprego e proteção de direitos, especialmente quem está em situação de vulnerabilidade. O diferencial é que a equipe é formada por pessoas trans e travestis.

"Como trabalhamos com o público LGBT, eles se sentem mais à vontade para contar sobre as dificuldades e violências que sofrem. Assim, a gente descobre o que é preciso e ajuda o governo a criar novas ações", explica Kelly de Oliveira, de 43 anos, servidora que trabalha no projeto há cinco anos.

O Garupa foi criado em 2021 pela Coordenadoria Executiva da Diversidade Sexual (Ceds) para ajudar o público LGBT+ a tomar a vacina contra a Covid-19. Entre 2025 e 2026, foram mais de 6.300 atendimentos, a maioria na Zona Oeste (2.749). O projeto também fez 256 ações em diferentes lugares.

Os agentes do Garupa estão nos Centros de Referência Especializado da Assistência Social (Creas). Eles orientam sobre como usar os serviços de assistência social e saúde. Os pedidos mais comuns são sobre "acolhimento, Cadastro Único (CadÚnico) e mudança de nome", além de orientação sobre transfobia e homofobia.

Kelly contou como a oportunidade de trabalhar no projeto mudou sua vida, assim como ela ajuda outras pessoas. Ela conta que o projeto transformou sua vida como mulher trans, já que o mercado de trabalho costuma ser muito difícil para essa população. Kelly foi profissional do sexo por cerca de oito anos. Hoje, quando atende pessoas trans e travestis, ela se coloca no lugar delas.

"A gente vê o quanto é difícil viver em uma sociedade que não nos inclui. Percebo como, ao longo da minha história no projeto, ajudei essas pessoas. Tem muitos casos de pessoas que voltaram para agradecer porque conseguiram um emprego, tiraram documentos, criaram coragem para falar com a família ou não estão mais morando na rua. Para mim, ocupar esse cargo é muito gratificante", diz Kelly.

Pontes entre vida pessoal e função pública

A empatia que permite ao servidor LGBTQIAPN+ se colocar no lugar do cidadão também acontece com Matheus Fraga Nunes, de 33 anos, que trabalha na Coordenadoria do Núcleo de Apoio às Vítimas do Ministério Público do Rio (MPRJ). O órgão oferece atendimento psicológico e apoio jurídico para vítimas de crimes no estado.

"Acaba funcionando como uma ponte: fazer meu papel como servidor, mas também passar para a equipe e para o órgão as questões da população LGBT+ e alguns conceitos importantes", observa.

Segundo o Observatório 2024 de Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil, feito pelo Grupo Gay da Bahia, o Brasil teve 291 mortes violentas, continuando como o país com mais homicídios e suicídios de pessoas LGBT+ do mundo. No Rio, foram 15 casos.

Já o Dossiê LGBT+ 2018, do Instituto de Segurança Pública (ISP), mostra que pelo menos uma pessoa sofre LGBTfobia a cada 24 horas no estado. Das 431 vítimas daquele ano, mais da metade sofreu violência moral. A Zona Oeste foi a região com mais crimes.

Além do atendimento, a coordenadoria também trabalha com o Centro de Cidadania LGBT do Estado do Rio.

"Acho que, a partir dos casos de transfobia e homofobia que vejo, existe uma necessidade de treinar sempre os órgãos públicos para lidar com a população LGBT+, para tentar acabar com esses preconceitos. E quando você tem uma pessoa LGBT preta e pobre, por exemplo, as dificuldades vão se somando", afirma o servidor, explicando o conceito de "interseccionalidade", que é quando diferentes características como raça, gênero, classe e orientação sexual se juntam na vida da pessoa.

Educação é aliada

Paulo Afonso, professor de sociologia e membro da Secretaria de Defesa de Gênero e Direitos LGBT do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio (Sepe-RJ), conta que, dentro do que é ensinado nas escolas, ele tenta "ligar o conteúdo à realidade" dos alunos sobre orientação sexual e gênero. Para ele, o ganho é mostrar aos alunos "uma possibilidade de existir sem estereótipos".

"Defender as questões de gênero, identidade de gênero e orientação sexual dentro da escola é muito difícil, porque geralmente a resistência não vem dos alunos, mas da equipe pedagógica ou da direção da escola. Mas o impacto que isso traz é, por exemplo, encontrar alunos que são da comunidade e que veem em nós uma possibilidade de existir sem estereótipos, sem regras morais apertadas, sem precisar se esconder", explica.

Professor há 17 anos, Paulo diz que seu trabalho como professor e como sindicalista se completam, já que a vivência na escola ajuda a entender a comunidade e dá base para a atuação do sindicato.

"O sindicato não é só uma instituição que luta pelos direitos dos educadores, mas também uma instituição que ensina. Ele atua em várias áreas e traz para dentro delas a discussão que é tão importante para nós: a defesa de uma educação de qualidade, a valorização dos profissionais da educação e a criação de currículos que incluam o combate à misoginia, à violência de gênero e à LGBTfobia", afirma.

"Quero ter outras pessoas como eu nesses espaços"

Diana Conrado, coordenadora de Diversidade Sexual do Município do Rio, de 30 anos

"Sou a primeira gestora pública que é uma mulher trans negra no município do Rio. Isso por si só já quebra um paradigma. O legado que essa gestão quer deixar é esse olhar cuidadoso para as necessidades da população LGBT+ em situação de vulnerabilidade. Meu trabalho está ligado com minha vida pessoal e com a visão de sociedade que tenho, de construir o que é necessário para que pessoas como eu possam ter uma vida digna."

"Me entendi como mulher trans aos 14 anos. Fiz minha transição de gênero aos 16. Concluí a escola, prestei vestibular. Participei de muitos cursinhos populares. Em 2018, entrei na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) para cursar Direito. Foi um marco muito grande na minha vida. Por muito tempo, achei que não era possível uma pessoa como eu estar nesse espaço."

"Logo no segundo período da faculdade, fui trabalhar no maior escritório de advocacia da América Latina como auxiliar jurídica e fiquei lá por 5 anos até me tornar advogada. Depois segui outro caminho, no poder público. Por muito tempo, nessa trajetória, eu fui a única nos lugares, a única advogada, a única estagiária, a única aluna. E não é bom ser a única. É muito solitário. Eu queria ter outras pessoas como eu nesses espaços também."

"Hoje, muito do meu trabalho é para fazer com que essas pessoas também tenham a esperança de que é possível, é difícil, mas é possível."


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